História do Audax

A história do Audax se confunde com a história do Paris-Brest-Paris Randonneurs (PBP). Realizado pela primeira vez em 1891, o evento de 1200 km, predecessor do Tour de France, é o desafio de resistência, habilidade e determinação mais antigo ainda realizado com regularidade na estrada. Hoje é a prova de ciclismo amador internacional com maior prestígio, dificuldade, tradição e participação. Organizado em agosto, a cada quatro anos, pelo clube anfitrião, Audax Club Parisien, o PBP começa no lado SO da capital francesa e transcorre 600 km rumo ao Oeste, até a cidade portuária de Brest, no Oceano Atlântico, retornando pela mesma rota.

Em realidade, a prova tem 1.225 km de distância e 9.539 metros de subidas acumuladas. Um prazo limite de 90 horas assegura que somente os randonneurs mais tenazes recebam a prestigiosa medalha e tenham seu nome escrito no "Grande Livro" do evento, junto com todos aqueles que o completaram desde o primeiro PBP. Tornam-se veteranos, ou, em francês, ancien (ou ancienne, para as mulheres) e juntam-se a um grupo de ciclistas de elite que superaram este desafio mítico. Não é mais uma prova para ciclistas profissionais (cuja participação é proibida). Em meados do século 20, o PBP evoluiu em um randonée, ou brevet contra-relógio para amadores curtidos. Os ciclistas randonneurs de hoje em dia, mesmo não usando as bicicletas primitivas por estradas de terra e paralelepípedo de antigamente, ainda têm que enfrentar o mau tempo, ladeiras intermináveis e ainda pedalar contra o relógio.

O calendário do ACP é rico em eventos de longa distância e também habilita ciclistas para outros eventos de 1.200 km no mundo, como o London- Edinbourgh-London (Audax UK), Boston-Montreal-Boston (RUSA), Rocky Mountains (BC Randonneurs, Canadá), Sofia-Varna-Sofia (Audax Bulgária), PerthAlbany- Perth (PAP - Austrália), Great Southern Randonee (Austrália), Vologda- Onega-Ladoga (Rússia), Colorado Last Chance, entre outros. Em 1998, Kayo Oliveira, natural de Novo Hamburgo, foi o primeiro brasileiro a completar um 1.200 km, o BMB (Boston-Montreal-Boston), considerado o mais difícil, devido à grande quantidade de montanhas a serem superadas. Em 1999, ele completou o PBP.

O Audax foi trazido para o Brasil em 2003, pelos apaixonados por bicicletas Cristiano Cordeiro, físico carioca, mas residente em Campinas, e o fotógrafo Manuel Rama Terra. Nesse ano, é fundado o Clube Audax Brasil, em Campinas, cujo objetivo é divulgar e estimular o ciclismo de longa distância e criar condições para que os ciclistas vençam seus próprios desafios. O CAB é parte do "Les Randonneurs Mondiaux" (LRM, braço internacional do ACP), que foi fundado pelo francês Pierre Giffard. Ainda em 2003, realiza-se a primeira série de brevets no Brasil, e em agosto, Manuel torna-se o segundo brasileiro a concluir um PBP. Em 2004 são realizadas provas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Nesse ano, Paulo Roberto Bagatini torna-se o terceiro brasileiro a participar de uma prova de 1.200 km, na Austrália, mas sem finalizá-la. Em 2005, em uma prova de 400 km, em Campinas/SP, um ônibus invade o acostamento e mata Alexandre Luz, Vice-presidente do CAB. Por causa da tragédia, a direção da entidade decidiu cancelar as provas restantes do calendário. Ainda nesse ano, Rosane Silveira Gomes torna-se a primeira brasileira a concluir uma série completa de provas de 200 km, 300 km, 400 km e 600 km.

Em 1891, as pessoas não sabiam o que podia ser feito com a bicicleta. Inclusive, alguns especialistas da Medicina daquela época alertavam o público, alegando "danos à alma e ao corpo humano” e algumas mulheres mais modernas insistiam em andar de bicicleta, igual aos homens, contando com espectadores incrédulos. Dez anos antes tinham começado as corridas em velódromo, e os passeios pela cidade de prósperos ciclistas, que podiam se permitir uma máquina daquelas, era relativamente comum. Mas a idéia de cobrir longas distâncias na estrada estava ainda na sua infância. De qualquer modo, com a virada do século se aproximando, idéias sobre o que poderia ser feito com este invento fascinante começaram a evoluir. Tentativas iniciais em corridas e no cicloturismo (superando obstáculos, como colinas) tinham começado alguns anos antes, mas não eram frequentes. As estradas de terra naquela época eram abismais, empoeiradas no calor e lamacentas após a chuva, e as ruas de paralelepípedo das cidades eram bastante agressivas para as frágeis rodas da bicicleta. De qualquer forma, na primavera de 1891 ocorreu a inaugural Bordeaux- Paris, uma corrida de estrada de 572 kms, que cativou a atenção do público, e as vendas de jornais dispararam durante os dias antes e depois. Isto não passou desapercebido para o editor (e ciclista entusiasta) do "Le Petit Journal": Pierre Griffard. Também observou que a participação estrangeira tinha dominado do começo ao fim o Bordeaux-Paris, pois o primeiro francês tinha se colocado num distante quinto lugar. Então, o PBP foi anunciado no verão de 1891. Griffard pretendia que fosse o teste definitivo para a confiabilidade da bicicleta e para a força de vontade do ciclista. Assinalou a marca de 1200 km. Sendo assim, o PBP faria do Bordeaux-Paris e seu tempo recorde de 27 horas parecerem uma brincadeira de criança. Somente homens franceses foram permitidos se inscreverem. Cada inscrito poderia ter até dez "puxadores", estrategicamente distribuídos ao longo da rota, ciclistas apoiadores que poderiam ajudar o participante, fazendo vácuo, ou em caso de problemas mecânicos (prática comum nas corridas daquela época, somente poucos dos melhor patrocinados ciclistas os empregavam no PBP). Como os automóveis estavam há alguns anos no futuro, a corrida seria monitorada por um sistema de observadores comunicados ao longo da rota pelo telégrafo e a ferrovia. Os jornalistas mandavam, claro, suas matérias a Paris para que o público estivesse abastecido com edições especiais, reportando as últimas notícias da corrida. O PBP chamou a atenção de fabricantes de bicicletas e de pneus, querendo mostrar ao público "louco por bicicletas" que seus produtos eram superiores a outras marcas. Ao contrário da rota rural do atual PBP, que com sucesso evita as estradas mais movimentadas ao oeste de Paris, a rota original seguia a "Grande Estrada do Oeste" a Brest, ou Route Nationale 12, como acabou sendo conhecida, através das cidades de La Queue-en-Yveline, Mortagne-au- Perche, Pré-en-Pail , Laval, Montauban-de-Bretagne, Saint Brieuc e Morlaix. Cada participante era requerido a parar nessas cidades-controle e ter o seu cartão de rota carimbado e assinado, procedimento praticado até hoje.

Ninguém sabia quanto tempo levaria pedalar aquela distância extraordinária e os mais pessimistas estavam convencidos de que não poderia ser feito, inclusive predicavam que algum ciclista poderia morrer na tentativa! Durante aquele verão de 1891, num tempo e lugar mais simples que o nosso, os jornais franceses estavam repletos de matérias especulativas sobre o evento, e a imaginação do público era estimulada com esta façanha de determinação e audácia. Mais de 400 ciclistas se inscreveram, porém muitos aparentemente desiludidos pelos incrédulos, desistiram antes da largada. Bem antes do nascer do sol do dia 6 de setembro largaram com grande pompa e cerimônia 206 ciclistas corajosos. Quantos voltariam inteiros a Paris (todos nas multidões se perguntavam)Amplamente divulgado pela imprensa e discutido pela opinião pública, a primeira edição do PBP foi um grande sucesso. O ganhador Charles Terront entrou pedalando em Paris triunfante após pouco menos de 72 horas sem dormir na estrada. Apesar de cedo, mais de dez mil torcedores esperavam sua chegada! Sua participação foi uma pedalada épica contra seus competidores e os elementos, e Terront tornou-se uma celebridade nacional. Pouco mais da metade dos participantes desistiram durante a prova e pegaram o trem, enquanto 100 ferozes sobreviventes continuaram a chegar a Paris durante sete dias. Junto com premiações em dinheiro ate o décimo sétimo colocado, estes heróis foram condecorados com uma medalha, contendo os seus nomes e tempos, e assim nasceu a lenda do PBP.

Em 12 de junho de 1897, um grupo de cicloturistas italianos percorreu 230 km entre Roma e Nápoles. Pela audácia da façanha, considerando-se as condições e equipamentos da época, denominou-se a mesma como "Audax". 

Depois do primeiro PBP em 1891, teve edições da corrida em: 1901, 1911, 1921, 1931, 1948 e 1951. O intervalo de dez anos refletia a dificuldade de organizar uma corrida dessa magnitude e também o esforço "hercúleo" exigido para participar. Entre os ciclistas era percebido que um PBP na carreira era o suficiente! Porém, na maioria das edições, a participação era pequena (25-45). Especialmente as primeiras atraíam os melhores ciclistas de longa distância da época. Por exemplo: Maurice Garin, duplamente vencedor do Paris-Roubaix, venceu o PBP em 1901 e também venceu a edição inaugural do Tour de France, em 1903. O segundo PBP também foi significativo, porque foi permitida a participação de ciclistas internacionais. Entre eles, Charly Miller, um especialista em eventos de longa distância em pista. Com poucos recursos para o PBP, Miller não dispunha do apoio de uma equipe como seus rivais, especialmente os passistas, ou puxadores. De qualquer forma, Miller perseverou a falta de sorte com numerosos furos e a sua bicicleta quebrada, e com uma bicicleta emprestada, de improviso, chegou no quinto lugar em 56 horas e 40 minutos, mesmo hoje em dia um tempo excelente que muitos gostariam de alcançar. Este jovem ciclista de 26 anos foi o primeiro norte-americano a participar e completar um PBP. Mais do que isso, o exemplo dele representa a determinação e auto-suficiência que permanecem um exemplo para o randonneur de hoje em dia.

Em 1904, Henri Desgranges, criador do Tour de France, criou o Audax Francês, tal como o Audax Italiano, e delegou ao Audax Club Parisien a realização dos Brevets Audax na França. Desde 1901, os inscritos foram divididos em duas categorias: os velozes "coureurs de vitesse" e os mais lentos, "touristes-routiers". Estes amadores curtidos negavam todo o apoio de equipe oferecido aos ciclistas entre os postos de controle ao longo da rota. Eles foram os predecessores dos auto-suficientes randonneurs de hoje em dia, e com frequência superavam a centena em cada PBP, até 1931. Outra grande mudança aconteceu em 1911: deixou de ser permitido o uso de ciclistas puxadores intermediários como nas duas primeiras edições. A partir daí, os corredores começaram a fazer parcerias com outros ciclistas, que pedalariam todo o percurso juntos, seguindo um líder. Em 1931, ocorreu outra mudança fundamental: apesar de ainda ser uma corrida profissional muito prestigiosa, os organizadores baixaram a categoria para a menos glamourosa: "touristes routiers". Para sorte dos randonneurs de hoje em dia, o ACP tomou cartas no assunto e organizou um brevet de 1200 km, organizado paralelamente a corrida. Era permitida a participação após a qualificação com um brevet de 300 km (os ciclistas de tandems poderiam fazer um de 200 km). Aproximadamente 60 randonneurs usaram a rota nesse ano. Entre eles, várias mulheres pela primeira vez num PBP. Algumas dessas randonneuses estavam de tandem e 2 em bicicletas solo. Pedalando com o seu marido Jean numa tandem, madame Germaine Danis chegou com 88 horas, tornando-se a primeira mulher a completar um PBP. Madmoiselle Paulette Vassard chegou 5 horas mais tarde para tornar-se a primeira mulher solo a completar o PBP. Naqueles tempos era permitido um tempo limite de 96 horas. Mudaria em 1966, talvez refletindo a melhoria das estradas e bicicletas da era pós Segunda Guerra Mundial, para o limite atual de 90 horas.

Na época, a rival do ACP, a UAP (Union des Audax Parisiens), que não quis ficar por baixo, organizou um evento similar após o PBP Randonneur para seus membros, que sempre pedalavam juntos, em grupo. Mas não permitiram a participação de tandems e mulheres. Acreditando no companheirismo e na idéia: "um por todos e todos por um”, na sua versão rigorosamente agendada do PBP, o pelotão chegou de propósito em Paris após 85 horas na estrada. Porém, nunca foi igual à versão Randonneur, cuja imprevisibilidade e ritmo livre lembra mais uma corrida de estrada.

A Union des Audax Françaises (UAF), sucessora da UAP, continuou a organizar o "Audax PBP" em intervalos de 5 anos, desde 1951. Continuariam as mudanças entre touristes-routiers e randoneurs: a edição de 1931 foi uma corrida PBP épica, para muitos a melhor de todas. Transcorreu com mau tempo e foi disputada com unhas e dentes por homens de ferro. Depois de numerosas escapadas, perseguições e contra ataques, a corrida finalizou com um sprint desesperado no Buffalo Velodrome de Paris! O vencedor merecido foi o grande corredor australiano Hubert Opperman ou "Oppy”, como era popularmente conhecido. Pedalando solo e superado em número por rivais com o apoio de uma equipe, seu curtido espírito australiano e sua atitude intrépida cativaram fãs e o converteram num ídolo na Franca. Não é de surpreender que não houvesse PBP em 1941, devido à Segunda Guerra Mundial. O esporte do ciclismo foi deixado de lado ao longo da Europa, com poucas exceções, como versões de um dia do Tour de Flanders ou do Paris-Roubaix (apesar da falta de ciclistas de elite, ou devidamente treinados). Algumas dessas corridas eram organizadas para levantar o moral e para lembrar àquelas nações ocupadas pelos nazistas que a vida estava voltando ao normal entre 1942- 1944. Não funcionou muito e as corridas de "verdade" foram retomadas em 1946/’47, depois do final da guerra. Houve algum esforço para organizar o PBP em 1941, mas a inevitabilidade de pedalar à noite desobedeceria ao estrito toque de queda imposto pelos invasores; então a ideia foi abandonada. Também Brest foi muito castigada pelas forças aéreas e terrestres do exército americano, pois os alemães usavam o excelente porto para basear sua frota de submarinos. Em setembro de 1944, 80% da cidade estava em ruínas e seus habitantes enfrentaram por décadas um árduo período de reconstrução. 

Uma corrida de pós-guerra foi promovida em 1948 e o sistema tradicional, usando anos com terminação em 1 foi retomado em 1951. Pelo transcorrer dos acontecimentos, esse foi o último ano da corrida profissional. Muito disputada desde a largada, foi uma árdua batalha, apesar da chuva presente a maior parte do tempo. Porém, houve muitos ventos favoráveis e vento de calda que acompanhou desde Paris e "virou" 180 graus, quando o pelotão chegou em Brest. O francês Maurice Diot regressou a Paris depois de somente 39 horas na estrada e por pouco superou no sprint o compatriota Edouard Muller, no Parc des Princes Velodrome. Em Trappes, nas imediações de Paris, Diot esperou elegantemente o seu rival enquanto este (Muller) consertava um furo no seu pneu. O exemplo esportivo genuíno foi uma boa maneira de concluir a última versão da corrida. Tentativas de organizar o PBP em 1956 e de novo em 1961 foram canceladas pela falta de interesse entre os corredores. O treinamento de longa distância requerido pelo PBP entrava em conflito direto com a lucrativa temporada que precedia o Tour de France. Poucos podiam se permitir à dedicação para os rigores do PBP e esperar algum dinheiro do prêmio, podiam ganhar muito mais participando das corridas mais curtas de um dia em cidades pela França, durante agosto. A garantia do dinheiro oferecido era difícil de ignorar, e além disso, podiam dormir à noite! Os organizadores do PBP eventualmente desistiram e entregaram a organização do evento à Federação de Cicloturismo Francesa. Uma era tinha finalizado: depois do PBP de 1951, o evento não era mais um “course professionelle”.

Como decaiu o interesse entre o mundo profissional nos anos subsequentes, na Segunda Guerra, as versões amadoras (tanto a Randonneur quanto a Audax) mantiveram o PBP vivo. Houve eventos do ACP PBP Randonneurs em 1931, 1948, 1951, 1956, 1961, 1966, 1971, 1975, 1979, 1983, 1987, 1991, 1995, 1999, 2003, 2007, 2011 e 2015. Bem concorrida para os tempos, os PBP da pós-guerra tiveram muita acolhida em um país querendo esquecer o pesadelo da guerra. Paralelamente, as versões Randonneur (cada um no seu ritmo) e a Audax (um pelotão) ficaram muito populares, assim como o ciclismo de clubes em geral ao longo da França. De fato, habitualmente e até os anos ’80, o Audax PBP tinha mais inscritos que a versão Randonneur. Depois de 1951 foi decidido agendar o evento em intervalos de 5 anos. De forma particular, os PBP Randonneur de 1948, 1951 e 1956 viram as equipes masculinas de tandem superar os ciclistas solo e chegar antes em Paris. Se os dias dos ciclistas profissionais tinham terminado no PBP, às vezes a versão Randonneur do ACP no seu pelotão principal lembrava a antiga corrida (sem contar o uso obrigatório de pára-lamas e a proibição de publicidade na roupa). Cada edição era concorrida por desafiantes randonneurs, cujo desempenho com frequência era impressionante. Poucas marcas continuaram a patrocinar esses randonneurs mais velozes, as vendas de alguma marca em particular sempre aumentam após cada "vitória" do PBP. Houve muitos triunfos franceses, mas quase sempre ciclistas diferentes. Porém, na era moderna, dois nomes se destacaram: o belga Herman De Munck, que participou com destaque desde 1966, e Scott Dickson, que participa do evento desde 1979 até os dias de hoje, sem perder um. De Munck, porém, já com certa idade, finalizou a edição de 1999 em 56:49 horas. Evidentemente, Dickson e De Munck, como tantos outros curtidos anciennes, verdadeiramente amam o PBP, apesar de (ou por causa de) seus rigores. Talvez o ganhador em 1931, Hubert Opperman melhor descreveu as diferenças entre os dois tipos de categorias quando voltou a Paris em 1971, para dar a largada aos randonneurs. Oppy disse aos participantes, enquanto esperavam: "Eu fui um ciclista profissional e vivi ao lado da bicicleta, vocês são os ciclistas de verdade porque vivem para ela”. Hoje em dia, o evento visto como "corrida" é apenas um espetáculo paralelo no PBP dos tempos modernos. Agora é um brevet ou randonée contra-relógio, onde o objetivo da vasta maioria dos ciclistas é voltar a Paris dentro do tempo limite e conseguir sua medalha de finalizador, e não derrotar seus companheiros randonneurs e randoneuses.

Companheirismo, não competição, é o perfil da maioria dos inscritos de hoje. Após anos de participação enxuta nos anos ’60 (menos de 180 ciclistas), o PBP Randonneurs cresceu tremendamente com a dedicação e liderança de Robert (Bob) e Suzanne Lepertel. O que uma vez foi um evento doméstico, nos anos ‘70 ciclistas em número crescente começaram a ir pra França para participar do cada vez mais internacional PBP. Mais randonneurs franceses também se inscreviam nesse desafio. Após a participação de 666 ciclistas em 1975, a seguinte edição, em 1979, contou com a participação de 1766!

Depois da participação de Miller em 1901, setenta longos anos se passaram até nova participação dos EUA, mas Clifford Graves e Ruby Curtis não conseguiram finalizar em 1971. Somente em 1975 houve 4 participações com êxito (Creig Hoyt, Herman Falsetti, Annette Hillan e Harriet Fell). As medalhas conquistadas com o pioneirismo desses ciclistas abriram as portas para as futuras participações dos EUA e, em 1979, participaram 35, em 1983, 107. Em 1999 esse número chegou a 400 do total de 3.573 inscritos, o que tem trazido complicações à ACP, pois a tarefa de coordenar e apoiar tamanho grupo não é fácil! 

Uma curiosa tradição de décadas é que as versões PBP Audax e PBP Randonneur eram organizadas com um dia de diferença. Em 1971, um grupo de 8 ciclistas do PBP Audax chegaram em Paris num sábado à tarde, com 85 horas de estrada, para largar no dia seguinte às 4 da tarde no PBP Randonneur! Os 8 chegaram com êxito. Esses audazes participaram com sucesso de 2 PBP's no prazo de uma semana! Como a rivalidade entre os dois clubes continuava latente, depois da amarga ruptura em 1921 (resultando numa longa disputa para determinar qual dos 2 estilos produzia ciclistas mais determinados), talvez para diferenciar e evitar o paralelismo destes eventos, o ACP mudou o agendamento do seu evento para cada 4 anos. A rota tradicional pela N-12 ainda era usada, mas o perigo trazido pelo aumento no trânsito motorizado nas décadas do pós-guerra, com freqüência colocava os ciclistas em situações de risco. Em 1961, um randonneur do PBP foi morto por um motociclista em alta velocidade. Em 1966, outro ciclista foi morto por um motorista bêbado. Em 1975, outros dois foram mortos e um ficou inválido, após um atropelamento por um caminhão (um dos atropelados era membro do grupo que fez o PBP 2 vezes em 1971). Esses trágicos acidentes convenceram o ACP que estava na hora de mudar a lendária rota pela "Grande Estrada do Oeste”, usada no PBP desde 1891, e desenvolveu uma rota rural, mais tranquila, porém com mais colinas, que os randonneurs contemporâneos conhecem. As cidades com posto de controle se tornaram: Villaines-la-Juhel, Fougères, Tinténiac, Loudéac, Carhaix e, claro, Brest. Depois de usar Bellême algumas vezes, em 1991, Mortagne-au-Perche foi incluída novamente. O PBP Audax ainda usa a rota N-12 modificada, tentando acompanhar a original, mas o pelotão de 200 ciclistas é escoltado por motocicletas e carros de apoio e sempre se mantém num grupo compacto, o que garante mais segurança. 

Junto com a mudança significativa da rota, o PBP Randonneur mudou sua aparência após o evento de 1975. Depois de usar restaurantes de estrada e hotéis como postos de controle, a partir de 1979 começou, o que é hoje prática usual, com uso de escolas e refeitórios maiores para os grandes grupos de cansados e famintos randonneurs. O sistema atual de largada por levas também se iniciou nesse ano, por motivos similares. Ainda teve mais uma mudança em 1979: a partir de então, todos os inscritos teriam que fazer a série completa de Super Randonneur, isto é, os brevets de 200 km, 300 km, 400 km e 600 km. Somente em 1983, quando os clubes organizadores desses brevets (Austrália, Bélgica, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Reino Unido e Suécia) fundaram o “Lês Randonneur Mondiaux", é que esse tipo de prova passou a ganhar mais notoriedade na Europa e nos EUA. Em 1991, foi celebrado pelo ACP e a UAF o centenário do PBP. Os dois eventos foram organizados simultaneamente e foi um sucesso para todos os envolvidos. Nessa época, os dois clubes decidiram esquecer suas rivalidades e o relacionamento tem sido harmonioso desde então. Devido ao crescente congestionamento da região de Paris, o local da largada foi transferido a Quentin-en-Yvelines, um subúrbio parisiense perto de Versailles. Já se foram os tempos de largadas civilizadas à tarde ou nas manhãs para este evento tão exigente. Por motivos de segurança, justificáveis devido ao fato de colocar milhares de randonneurs em estradas nas imediações de Paris, largadas noturnas são frequentes (infelizmente isso causa dificuldade adicional aos ciclistas mais lentos, alguns dos quais sofrerão efeitos piores de privação de sono no decorrer do evento). Em 1995, o requerimento das regras do ACP do uso compulsório de para-lamas e da proibição de publicidade na vestimenta foi abolido e para os mais puristas, parte da atmosfera se perdeu.

De fato, houve algumas mudanças no PBP ao longo dos anos, mas isso não é de se estanhar, pois o mundo é um lugar bem diferente que em 1891. De qualquer forma, os desafios que os randonneurs de hoje em dia encontram no PBP permanecem perenes e ressaltam seu apelo extraordinário e status lendário. O que esse curto espaço não permitiu foram as histórias de valentia, desilusão e triunfo que surgiram dos corredores e dos randonneurs em cada edição do PBP. Esse trançado de empreendimento humano é que dá ao PBP uma mística perdurável. Não se engane: o PBP é definitivamente uma pedalada brutal e não é para os tímidos! Mas as virtudes heroicas frequentemente encontradas entre os participantes, tanto no passado quanto no futuro, são um testemunho eloquente do inconquistável espírito humano.

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O que é Audax?

As principais provas mundiais de ciclismo realizadas são: Campeonato mundial de ciclismo, Tour de France, Giro D’Italia, Volta da Espanha, Paris-Roubaix, Milan-San Remo. Essas provas consistem, em sua maioria, de competições de velocidade.

As provas de Audax são disputas de altíssima resistência e orientação em estradas, geralmente pavimentadas, destinadas também para praticante iniciante e ciclista de final de semana, não necessitando ser um atleta com bom desempenho. Este fato justifica a participação de muitos ciclistas. As provas Audax exigem disciplina e superação dos limites. Não é uma competição, embora possa acontecer uma disputa sadia entre os participantes: o maior desafio é superar os próprios limites, pedalando cada vez mais longe. Por não ser competição,  possibilita ao participante pedalar longa distância, com um mínimo de segurança, em companhia de amigos e conhecendo novas pessoas. 

Pedalar longa distância representa a necessidade de enfrentar calor, frio, sono, vento contra, longos declives, aclives e estradas sem curvas, escuridão da noite, solidão (algumas vezes) e outras dificuldades e perigos das estradas brasileiras. Também representa ter autonomia, preparo psicológico, conhecimentos e vontade de superar desafios. Exige reservar um tempo na vida para realizá-la, pedalar como se vivesse desde sempre sobre uma bicicleta ou como se fosse a única coisa a ser realizada para sempre. De certa forma, é esquecer o mundo real e brutal do cotidiano, reduzindo o stress e tentando superar tudo por um objetivo, sobre uma bicicleta.

São poucas as restrições para participar desta modalidade. Esse fato, aliado às possibilidades de participação de ciclistas de diversas idades e com os mais variados modelos de veículos, favorecem a participação de novatos, pessoas de todas as idades, casais, e outros que pouco praticam esse ou outro esporte. Todo tipo de veículo propulsionado unicamente pela musculatura humana (HPV) é permitido: reclinadas, tandems, triciclos, mountain bikes, Down Hill, speeds, tourings, patins, patinetes ou bicicletas Audax (uma espécie de touring de cromo muito leve, com pára-lamas e dínamo, muito usada nos Audax francês e inglês). Não há restrições quanto a tamanho das mesmas ou dos pneus e aros. Todo participante deve assinar um Termo de Responsabilidade, onde consta que respeitará as leis de trânsito e a Natureza, informará a Organização de qualquer perigo e usará equipamentos  de segurança. Além disso, todo participante poderá apresentar atestado médico, informando que está em plenas condições físicas para participar da prova.

O equipamento obrigatório é levado muito a sério, por questões de segurança e pelo fato de se pedalar muito durante a noite, em alguns Audax. São necessários colete refletivo, capacete, luz traseira e luz frontal (com possíveis pilha, ou baterias extras).

Não é permitido nenhum tipo de apoio móvel. Somente nos Postos de Controle (PC’s) o participante pode receber ajuda externa. Tais Postos de Controle estão localizados, geralmente, a cada 50 km, onde o ciclista é obrigado a parar, para carimbar o Passaporte que possui em mãos.

A maioria dos participantes carrega uma certa bagagem: luvas, capa de chuva, casaco, câmaras reservas (no mínimo, duas), ferramentas, pilhas, kit farmácia, fitas anti-furos (como a “Mr. Tuffy”, por exemplo), bomba de ar, kit conserto, roupa adequada para ciclismo (de preferência, com cores claras), caramanholas (“squeezes”), alimentos  energéticos, como barras de cereais, salgados (castanhas, nozes, amendoins, etc.), doces (“mariolas”, “Power Bar”, etc.), líquidos repositores isotônicos, ou mesmo água, já que o Audax é realizado em qualquer condição climática.

Para o apoio logístico e fiscalização no trajeto, há as concessionárias ao longo do trajeto, também com a autorização e presença essencial das Polícias Rodoviárias Estadual e Federal. Brevets em cada etapa são distribuídas medalhas e um Certificado de Participação para os que completarem o tempo máximo exigido. Além disso, todos os atletas que completarem a prova recebem um “brevet”, que habilita o atleta a participar da etapa seguinte.

As competições são organizadas da seguinte maneira: para o brevet de 200km, não há requisito prévio. Ele habilita à participação no brevet de 300km. Assim, conquista-se a participação na etapa de 400 km, chegando ao ponto final da série: 600 km. Depois disto, tem 1.200 km, praticado fora do Brasil. Os brevets têm um tempo máximo para serem completados, da seguinte maneira:

DISTÂNCIA KM  TEMPO MÁXIMO

200km                13h30min
300km                20 h
400km                27 h
600km                40 h
1.200km             90 h

Um pré-requisito para concluir a prova é a observância do tempo limite para chegada. Para tanto, é importante manter um bom ritmo de pedalada, saber dosar e economizar energia, alimentar-se corretamente, além de treinar, para manter o preparo físico. Quanto maior o percurso do Audax, maior a necessidade de planejamento e de bons equipamentos, como a bicicleta, os acessórios e o vestuário. 

Praticamente todo ano há brevet de 1.200 km em alguma parte do mundo, sempre organizado pelo ACP (Audax Club Parisien). No entanto, a cada quatro anos, na França, é realizada a competição Audax PBP (Paris-Brest-Paris), o mais famoso dos brevets. Com 1.225 km de extensão, essa prova é "Copa do Mundo" dos ciclistas de longa distância e reúne MILHARES de ciclistas.

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